Entendendo Alberto e a Cruz


08/09/2005


Escrito por Alberto da Cruz às 18h10
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Biografia Sintática

Eu, substantivo, da ação verbal

Objeto jamais quis permanecer.

Nutri em vida o ledo sonho

De como sujeito me enternecer.

 

Fui infeliz na sintaxe da vida,

Pois primeiro me coube a função

Completiva de outro nome

Por imposição do ser.

 

Tornei-me passivo e subordinado,

Com deveras esforço, galguei novo cargo.

Como adjunto caracterizei um cognato

Desses mais aclamados.

 

Tempos passados me coordenaram

E por meros instantes me orgulhei,

Mas quis o sádico destino alomorfizado

Que eu fosse somente um derivado.

 

No processo verbal, deixaram-me

Sem me consultar, no predicado.

Tolo eu fui, pois não me permitiram nuclear...

Completei, assim, um indiferente verbo irregular.

 

Sofri a farfalhada zombaria

De ingratas preposições....

Delas nada mais se pode esperar,

E a pena caridosa das interjeições

Suspirando: Ai, ai!

 

Ao meu lugar me pus

E aceitei a passividade do termo,

Quando me promoveram à categoria

De objeto direto, mas por não confiarem,

Fui pleonastiquizado sem piedade.

 

A pena, cumpri sem questionar

Pois esperança mantive de me verbalizar

E na diferente construção,

Enfim me realizar.

 

Não tive a sorte

E no período vaguei

Sem fixa posição,

Totalmente sem lugar.

 

Quando por fim a notícia tive,

Estava a me deslocar.

Convidaram-me para sujeito

E nem pude acreditar.

 

De gala me vesti

Todo, inteiro e aprumado

Com o sorriso exposto compareci

Para ser apenas indeterminado.

 

Magoado com os termos

Faltando a concordância

Brigado com a regência

Desisti ... em nome de um jovem cognato.

 

Fui ser anacoluto na vida.

Escrito por Alberto da Cruz às 17h53
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Um reino qualquer

 

Falta coragem ao povo.

E agora?

O rei se desculpa,

            de culpa se onera.

E o bobo sorri temerário

À ira do apático espera.

 

Falta pão na boca

E vazio o circo sem lona.

Ninguém chora pelo tísico,

Ninguém move um cisco.

 

O feudo comemora a miséria,

Brinda à fome e à pobreza.

A festa anima-se na hora

Em que chora a criança faminta.

 

O palácio de mil cores se enfeita

E o tapete vermelho transpassa a sala.

A corte caminha com graça

E no trono o riso estala.

 

A luz das velas ilumina

O banquete que gozam generais.

Sobram ossos e vermes à populaça,

Aglomerada nas janelas, embasbacada.

 

            E agora?

            Sobrará caldo nos ossos?

            Vermes nos pratos?

 

Moscas ditosas em vôo sublime

Sobre os pratos largados

E os restos do crime!

Escrito por Alberto da Cruz às 17h53
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Não te soube amar

Desculpas eu te peço,

Mas não dá para continuar.

Vou-me sereno, sem reclamar.

Passado tanto tempo, confesso

Não te soube amar.

 

Por isso, triste, me despeço.

Sigo rumo ao meu inferno

Sem poder de onde vim voltar.

Caminho sem pressa, confesso

Não te soube amar.

 

Queria ainda um beijo,

No teu rosto os lábios estalar;

Mas não posso ousar,

Pois te fere meu toque, confesso

Não te soube amar.

 

Saio cabisbaixo e desolado,

A porta bato e abro o portão;

Sigo para a rua a ouvir meus passos

Arrastarem-se no limbo, confesso

Não te soube amar.

Escrito por Alberto da Cruz às 17h52
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Eu tinha você

 

Quando volto para casa

E mergulho na escuridão,

Penso em dias tenros

Em que você eu tinha na mão.

 

E afundado nas lágrimas tristonhas,

Perco o nexo sentido da vida

A cada instante do tempo enfadonho

Em que eu tinha você na mão.

 

E atolado na lama do só,

Protesto contra o óbvio destino

Todo momento em desatino

Em que tinha você na mão.

 

E preso nos grilhões adormecidos

Percebo a fugacidade dos ponteiros

Sempre que me embaço lamentando

Que eu tinha você na mão.

Escrito por Alberto da Cruz às 17h51
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Ao vento

 

 No vento árido do deserto

Chora um único homem

Como se as lágrimas fossem salvá-lo

Da miséria desvairada,

Da vida breve e dorida

Do ser destruído na alma.

 

Queira viver — disse a si mesmo,

Como se bastasse à tormenta.

Uma voz baça, disforme levanta

E grita num buliço desumano.

— Não dá mais! Morra, lamentando.

Escrito por Alberto da Cruz às 17h51
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A criatura

Dança a ebúrnea criatura

Sobre o cetim infame vermelho.

Balança sua pança na dança,

Tremendo, rangendo, perdendo

O tino infindo sereno.

 

Levada pelo ritmo harmônico puro,

Mexe o corpo em compasso nulo.

Azucrinando a leda, mas triste sinfonia

Ebúrnea criatura a dançante

A rodar o mundo!

Escrito por Alberto da Cruz às 17h50
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